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Os empresários dos media têm preferido recriar os muros para colocar os conteúdos dentro, meter uma porta e cobrar acesso para os dois lados. Contam-se pelos dedos de uma mão os exemplos de jornais no mundo inteiro que já perceberam que (re)criar a escassez é um caminho preferível. Eis mais um exemplo de como se pode criar escassez num mundo de abundância -- e lucrar com isso sem afetar a marca e a relação com a audiência.

O exemplo é a da Teefury. A Teefury vende t-shirts para todo o mundo. Eu já comprei meia dúzia, a 9 dólares a peça (mais portes). O que me leva, e a milhares de pessoas diariamente, a comprar por 9 dólares uma t-shirt estampada, do género da que podemos comprar por metade do preço num mercado de rua?





Mais pertinente: o que nos leva a assinar o feed e a regressar periodicamente à Teefury, com algum entusiasmo?

A primeira resposta é a resposta óbvia: porque as t-shirts da Teefury são desenhadas por artistas.

É uma boa resposta, mas é a resposta errada. Sim -- o facto de designers produzirem as estampas é marcante, mas não é isso que nos leva a voltar à Teefury. Prova: há na rede muitas lojas de t-shirts desenhadas por artistas, já comprei nalgumas e não voltei a nenhuma, nem recordo os seus nomes.

O que nos leva de volta à Teefury é o hábil mecanismo de produzir escassez que os criadores do serviço inventaram. A Teefury não tem inventário. A Teefury não tem arquivos. A Teefury selecciona desenhos criativos e exclusivos, estampa-os e vende produtos únicos em janelas de 24 horas no máximo de 3 unidades por encomenda. Chegado ao fim do prazo, puff, ardeu. (O artista pode repetir o design noutro sítio, sim, mas não é a mesma coisa. Se fosse, repetiam.)

Os produtos da Teefury têm qualidade autoral, mas é desigual através dos tempos. Não são repetíveis. A Teefury não tem problemas de armazenamento nem fica com sobras: todos os dias, manda estampar o número exato de t-shirts encomendadas.

Enquanto nas águas o segredo do lucro com um produto grátis está na embalagem, certificação de gosto e qualidade e sobretudo no marketing, neste negócio com um produto de extrema abundância e preço reduzidíssimo o segredo está na irrepetibilidade da operação e na ausência dos custos normais do comércio. Aquela t-shirt só ali está durante um dia, é pegar ou largar, não haverá mais amanhã, é fabricada à medida das encomendas. Aquela t-shirt não vai aparecer nos saldos.

Uma das regras essenciais da web é recompensar a originalidade. Este ambiente não é para monges copistas. Quem fornece conteúdo indiferenciado não pode esperar em troca senão recompensa de baixo ou nulo valor.
"O Twitter tem sido uma armadilha fatal para os jornalistas", é o título de uma peça publicada na parte noticiosa do Sapo. Eu não teria lá chegado se o título não tivesse sido tuítado: prefiro usar agregadores de notícias em que confio, isto quando não vou diretamente aos meios, ou os agrego eu usando as ferramentas tecnológicas ao dispor.


Tudo na pretensa notícia está errado. A autora tinha uma ideia (a de que o Twitter é "mau") e para a passar (ver actualização, em baixo) parte de um facto, que interpreta erradamente, e vai de distorção e erro em distorção e erro até à conclusão final. De caminho cita um professor universitário para emprestar credibilidade à sua própria opinião. Acontece aos melhores e o problema não está, obviamente, no que disse Hélder Bastos.


A peça, enquanto opinião, poderia ter algum valor. Podia estar alicerçada numa demonstração de factos. Podia usar a eloquência, podia usar a lógica. Estaria certo, seria leal para com o leitor. Mas não foi o que se passou: pega-se num facto, interpreta-se ao contrário e tiram-se conclusões gerais que nada têm a ver com a origem do facto, publicando o resultado final num sítio que tem notícias.






Desmontando a "notícia":


1. O "obscuro utilizador" breakingnews é, na realidade, propriedade da cadeia MSNBC, referida na peça como tendo usado "enganadamente" a informação pretensamente obtida a ler aquele tweet. Quando se passou precisamente o contrário. De posse de uma informação, a cadeia MSNBC fez o que é já rotina no seu modus operandi: meteu a informação em curto na conta @breakingnews (que, como o nome indica, é mesmo para isso). De nada disto nos informa a "notícia"; pelo contrário, desinforma, garantindo precisamente o oposto.


2. Tudo na "notícia" está redigido de forma a levar o leitor a crer que foi o malvado Twitter o culpado, quando o erro está na própria fonte. Os jornalistas da MSNBC foram induzidos em erro pelas etiquetas das câmaras de monitorização de vulcões (ver imagem abaixo da câmara que os enganou). Eles próprios, aliás, o explicaram -- mas quem escreveu a "notícia" não leu a explicação, ou se leu ignorou-a na altura da redacção, o que seria muito mais grave.


Eis a explicação, dada por Alex Johnson:

1. What happened with Hekla reports? We held off on first bulletins, awaiting second source, which was Iceland's RUV, streaming webcam ...





2. ... labeled "Hekla." We tweeted that, with link, as an "indication" that Hekla was erupting. Many retweets stripped out the hedging. ...
3. ... Remember that that tweets, which stress speed, are only as good as original sources ^AJ



3. A cadeia de retransmissão Twitter, neste caso, fez o que está certo: retransmitiu a informação de fontes absolutamente credíveis. A conta @BreakingNews é uma das fontes Twitter com maior credibilidade. A sua fonte era uma fonte oficial islandesa. Se as primeiras duas fontes da informação original erraram, a responsabilidade principal é delas e não da cadeia de retransmissão. 


Imaginemos que não havia Twitter. A MSNBC dava o breaking news da actividade vulcânica em antena. As outras cadeias e jornais o que faziam? Iam a correr comprovar a fonte, ou publicavam? Uma minoria não daria sem confirmar pelos seus próprios meios, mas a maioria retransmitia ao mesmo tempo que destaca alguém para averiguar e seguir os desenvolvimentos. É a prática corrente: avaliar o risco, ficar de fora ou entrar e procurar apanhar o fio da meada.


Imagino o título da correspondente "notícia", cuidadosamente colocado entre aspas para parecer uma citação que tem alguma coisa a ver com o assunto (basta ler o que disse o Hélder para perceber que é um abuso puxar aquilo para título): "a televisão tem sido uma armadilha fatal para jornalistas".


4. Se um jornalista transmite uma informação sem a confirmar, o problema é do meio utilizado para a obter?


É isso que fica entendido na peça. Digamos que é subverter a ordem natural da cadeia de responsabilidade. Se uma fonte oficial dá uma informação, a sua credibilidade é elevada. O jornalista pode passar a informação em breaking news, tratando do seu aprofundamento em seguida. Não é, de todo em todo, o mesmo que ler algo de uma fonte desconhecida, ou de credibilidade não avaliada, no Twitter e passá-lo como verdadeiro -- que é o que a "notícia" em análise nos quer fazer crer que aconteceu.


5. A assunção de que os "600" retweets (eram mais de 800 já na altura, mas isso agora não interessa) constituem uma medida do "sucesso" do tweet de origem obscura e mentiroso que enganou as pobres televisões, com o intuito de reforçar o lado "perigoso" do Twitter, é um disparate que não resiste a uma verificação mínima do que se passa normalmente com a conta @breakingnews, que tem um alto perfil e 1,7 milhões de followers. A título de exemplo, estoutro tweet recente teve mais de 800 retransmissões diretas e mais de 7.000 indiretas. A conta @BreakingNews está entre as mais retweeted, ou retransmitidas, o que nos dá uma indicação do prestígio de que goza.




Concluindo. Este caso é de facto um excelente exemplo do estado do jornalismo português (falo especificamente do jornalismo sobre as tecnologias e os novos espaços de fronteira por elas aberto, isso a que chamamos agora a web 2.0).


O Twitter é um pau de 2 bicos, disse -- e bem, porque o é -- o Hélder Bastos. O Sapo é um pau de 2 bicos, digo eu: também é uma plataforma para passar como notícia uma informação mal fundamentada e interpretada. (O Sapo e qualquer outro website que publique notícias, não há aqui nada de particular, digo isto para evitar desde já mal entendidos e mal intencionados.)


Mas o caso da erupção é o último a invocar para explicar os perigos do Twitter. Exactamente porque os envolvidos no engano são fontes oficiais e jornalistas profissionais, não são fontes de credibilidade indeterminada e amadores ansiosos por brilhar no "tempo real". Podia ter acontecido noutro suporte ou meio à mesma equipa de 18 - jornalistas profissionais - 18 que editam a conta @breakingnews para a MSNBC.


Fontes complementares:
Actualização: a autora da notícia, a jornalista Alice Barcellos, entrou em contato comigo. Tinha duas coisas a dizer-me: que não era sua intenção passar a sua opinião no texto e que -- e isto é importante -- o seu título não é o que saiu. O seu título original era (e ela tentará que venha a ser de novo, junto da editora): "Uma erupção que só durou algumas horas". O trabalho dos editores às vezes trai o jornalista no terreno.
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Alex Primo, investigador, professor e "blogueiro", mexeu no iPad -- e gostou. Publicou um post no seu blog Dossiê Alex Primo onde escreveu que o dispositivo da Apple "promete reinventar o jornalismo". 

Como calcula quem já me leu sobre isso do iPad salvar o jornalismo já está a adivinhar que deu briga essa frase e foi por aí que tivemos uma pequena troca de ideias no Twitter. Tudo se esclareceu depressa: Alex Primo (que tem um mestrado em jornalismo) não falava do modelo de negócio (a minha "guerra"), mas da experiência de leitura e da restituição da diagramação (o desenho das páginas do jornal) ao jornalismo pós-papel. Estamos de acordo em ambas as matérias: essa e a de que um aparelho e um ambiente tecnológico fechado controlado Apple não são propriamente salvíficos assim à partida...

Abaixo republico o seu Vídeo de minha primeira experiência com o iPad, bem interessante.
Há dias escrevi no Correio da Manhã sobre a irracionalidade de uma indústria que, perante tremendas dificuldades de vária ordem, acredita que se salvará através de um aparelho de leitura novo, de adesão ainda desconhecida e sobre o qual não tem a mais pequena espécie de controlo (ler no jornal ou aqui no blog).

Falava do iPad e da indústria dos media, no sentido lato -- embora quem, na realidade, "vê" a salvação no iPad seja a sub-indústria do jornalismo.

Na sexta-feira o ex-director e agora colunista do Público, José Manuel Fernandes, tem um recomendável artigo no jornal em que aborda este assunto (Do iPad na Quinta Avenida ao “projectista” da Guarda). Embora cauteloso -- reflexo das muitas leituras e de algumas conversas seguidas pelo Twitter --, faz eco das aspirações do jornalismo face ao iPad.

A leitura do seu artigo fez-me enunciar aqui algumas considerações, mais em jeito de prolongamento de uma reflexão que rareia em Portugal do que de resposta, ainda que algumas possam como tal ser entendidas.

iPad aprofunda o papão dos jornalistas: o hipertexto

Começo pela crença de que o iPad mudará a orientação de leitura das pessoas. Grosso modo, dizem os defensores da teoria, com o iPad os "conteúdos" passarão a poder ser espartilhados de novo num canal ao qual se pode apor um torniquete e uma bilheteira. Nem sei se é bem uma teoria, ou apenas um forte desejo tornado pensamento positivo.

Um pouco de história. Breve. Desde o aparecimento da World Wide Web os jornalistas têm convivido mal com a teia. A teia, tornada possível pelo hipertexto, é o papão dos jornalistas. Um temor irracional que fazia, nos primeiros tempos (e faz hoje ainda em milhares de Redacções), com que nem por decreto-lei um jornalista colocasse um link num artigo. Nem para uma fonte, mesmo que se tratasse de uma fonte oficial. JAMAIS pensar em hiperligar uma página da concorrência. E nunca, nunca, nunca, NUNCA! assumir com um link a autoria externa de uma foto, de um video, de uma ideia.

A justificação: um link manda as pessoas para fora da nossa página.

(Na realidade os jornalistas sempre tiveram o dedo fácil para se apropriarem do esforço alheio, publicando informações como de sua autoria sempre que podiam omitir o nome da fonte, em especial se a fonte era um jornal rival; uma indústria floresceu à sombra dessa "vaidade autoral": a das agências de comunicação que se especializaram em distribuir a mesma mensagem por todas as redacções, parecendo que toda tinham "a" cacha.)

Veio a blogosfera e, partilhando a mesma tecnologia e sentido de oportunidade, os primeiros órgãos informativos alternativos. Uma e outros usam o hipertexto com naturalidade, cruzando links sempre que se justifica e até mesmo quando, não o justificando a leitura, a cortesia e a troca de reconhecimento são encaradas como um valor que se passa num link.

Vieram os grandes negócios em cima da pesquisa. Para o que aqui conta, o Google fez negócio precisamente com o papão que assusta os jornalistas: enviar pessoas para fora da sua página.

Vieram os grandes negócios explorando os próprios links: a publicidade contextual fez florescer milhares de pequenos, médios e grandes serviços de apontadores, alguns dos quais se tornaram agregadores de links crescendo ao ponto de poder de inverter a relação de forças, subalternizando os produtores de conteúdo. O caso do Sapo, em Portugal, devia ser estudado pelos jornalistas e seus empregadores.

(Não deixa de ser ridículo ver jornalistas cujos órgãos de informação produzem entre 10% e 50% do conteúdo que vendem apontarem o dedo ao negócio dos portais de links...)

Vieram as redes sociais, a web 2.0 -- ou seja, a incorporação do hipertexto na própria comunicação individual, que permitiu substituir algumas funções do jornalismo, como indicar os melhores restaurantes,  automóveis em segunda mão ou serviços de telecomunicações com mais defeitos.

E a todas as modificações permitidas, impulsionadas ou possibilitadas pelo hipertexto a indústria do jornalismo olhou desconfiadamente, atrasando a respectiva incorporação no seu produto.

Neste quadro, não é de admirar que os jornalistas não consigam ver no iPad o que ele realmente é: mais um filho do hipertexto, um especialmente importante na medida em que liberta o hipertexto da condicionante posicional. Não mais precisarei de "ir ao computador" para ver, em termos práticos, o que pude antever na breve consulta via smartphone: com o iPad sigo, em excelentes condições, os links que me chegam para as coisas que me interessam.

No iPad reside uma versão aprimorada do Safari. Recordo: o Safari é um WEB BROWSER. Agora expliquem-me porque é que leitores educados na web, no hipertexto, no acesso instantâneo, tendo o seu mundo em rede simplificado e melhorado num aparelho libertador, irão ao invés optar por se fecharem em aplicações únicas, sem contacto umas com as outras?

Nem sequer coloco a segunda questão óbvia por esta altura: porque é que ainda por cima pagarão para o fazer?

(É claro que algumas pessoas pagam. Pessoas como a minha irmã, que paga conscienciosamente praticamente todo o software livre que usa. Pessoas como a minha mulher, que paga semanalmente alguns jornais por razões de consciência pois que quase só os lê online. Mas não serão as excepções a salvar um negócio que viveu das regras, das massas. Ou o Pai Natal existe.)

Então, quem pagará pelo jornalismo?

José Manuel Fernandes coloca de novo a questão, alinhando o iPad para uma possível resposta: quem pagará pelo jornalismo?

Eis algumas ideias afluentes.

O jornalismo como negócio nunca subsistiu autonomamente. Ao longo da história os "conteúdos" jornalísticos serviram para vender ideias, políticas ou comerciais. Foram, e ainda são, veículos avalizadores de outras informações que, não tendo em geral capacidade para serem elas próprias "notícia", passam nas mesmas páginas como anúncios, ou publicidade. É esta que gera o lucro das empresas que através dos tempos pagaram o jornalismo.

Esta é a solução dominante; há mais algumas, como raros jornais e revistas que ao longo de períodos da sua história subsistiram apenas das vendas -- isto é: do interesse que os seus artigos geravam no público, dando-se ao luxo de relegar os anúncios para segundo plano. Só conheci um exemplo em Portugal: o tri-semanário desportivo "A Bola", que durante décadas pode desprezar a publicidade como fonte de lucro.

Portanto, o jornalismo tem sido pago maioritariamente por quem dele precisa: os anunciantes, num distante primeiro lugar, entidades e organizações com diversas finalidades que subsidiam o produto do jornalismo seja por vaidade pessoal ou prestígio (mecenato), controlo de comunicação de massas (grupos económicos) ou interesses mais diretos que não desejo abordar aqui.

Atenção: não estou a dizer que o jornalismo não tem um público que o quer, que dele precisa, e que o pode financiar. Na realidade penso que tem.

Onde pretendo chegar é aqui: as necessidades de jornalismo existem, mas não são capazes de satisfazer a indústria do jornalismo que conhecemos e que se desenvolveu com base em premissas que só indirectamente têm a ver com a informação, a liberdade de acesso à informação, a liberdade de expressão e a profissionalização desse exercício.

Uso outro exemplo do artigo de José Manuel Fernandes. O número de jornalistas acreditados junto da União Europeia em Bruxelas diminuiu de mais de 1.300 para 752, de 2005 para cá (cita The Economist). Alguns poderão ver aqui um sinal dos cortes a que os donos dos jornais têm sujeitado as publicações, no intuito de manter os lucros ou suavizar a sua queda. Mas outros poderão contrapor que se trata de uma auto-correcção: 1.300 jornalistas acreditados não seriam um luxo? Em aritmética simples, 1.300 jornalistas representam 6,4 jornalistas por cada país do mundo (lista na Wikipedia).

Há um factor que os jornalistas (e quem, não o sendo, se interessa pela sua existência) também gostam de  passar em claro, quando não ignorar: as tecnologias de informação e distribuição reticular não beneficiaram apenas os indivíduos com tempo livre para blogarem, mas também os organismos e instituições tradicionais emissores de informações úteis ou relevantes. Instituições como... a União Europeia, ou a Presidência da República portuguesa, têm agora um contacto direto com audiências de todos os tipos -- incluindo algumas audiências capazes de reprocessar a informação de forma inteligente ou mesmo crítica.

Este papel de publicitação da informação, em forma directa ou acrescentando-lhe valor pelo processamento, avaliação, contraposição e outras formas de adicionar valor, era um exclusivo do jornalismo. Era. Deixou de ser.

Quer isto dizer que os jornalistas deixaram de ser os avaliadores da informação das fontes oficiais?

Não! Que ideia. Quer apenas dizer que deixaram de ter o exclusivo. Com eles concorrem agora uma plêiade de indivíduos e organizações interessadas, uns com mais empenho e capacidade técnica, até, que os jornalistas, outros meros observadores com gosto pela opinião. Mas todos eles capazes não apenas de executar, em conjunto e de forma satisfatória, o processo de fiscalizar e aferir a prestação de contas (da coisa pública como da coisa privada com interesse público), mas também a actividade de tornar públicos os resultados desse processo -- e retransmitir a informação processada, por eles ou por terceiros.

Além da publicação da informação oficial, o jornalista perdeu portanto duas importantes fontes do interesse na sua actividade: a filtragem e a publicação, no sentido de difusão ou emissão, de resultados.

Talvez fosse então pertinente passar a adicionar à pergunta acima uma segunda pergunta, como fiz no título deste artigo:

Qual jornalismo?

O jornalismo de agregação e retransmissão de informações? A informática e a rede tiraram-lhe a exclusividade dos dois processos. Já não merece ser pago e não o será, nem que a Apple tenha o maior sucesso com o iPad e este corresponda aos delírios.

O jornalismo de filtragem, que apontava os melhores filmes, livros ou automóveis? O hipertexto e as redes tornaram-no desnecessário. Subsistirão alguns olhares, alguns críticos experimentados, e uma certa nostalgia da crítica. Mas a selecção já é maioritariamente feita com recurso à rede.

O jornalismo de inteligência e experiência, que vai a um congresso partidário, a uma final desportiva, a um evento público e interpreta e explica? A concorrência dos bloggers é imensa e intensa.

Volto a um dos exemplos favoritos de José Manuel Fernandes: o de José António Cerejo (que conheço há 30 anos, com quem trabalhei e que admiro) e as suas investigações sobre as actividades do Primeiro Ministro. Na verdade, quem paga este tipo de jornalismo não é o leitor. Cerejo e a sua investigação são possível graças ao mecenato.

Com elevados custos e audiências ainda mais pequenas, a maioria do jornalismo de investigação só foi possível graças a: mecenato -- genérico (Belmiro com o Público) ou dirigido (reportagens sobre ambiente patrocinadas por ONG) -- ou a sindicatos de publicações, sob a forma de agências, que repartem os custos.

Sem pretender ser exaustivo -- os académicos estão aí para isso -- detalho ainda outra forma de pagar o "jornalismo de investigação": a diluição dos seus custos no produto global. É um preço que só publicações que competem pelo prestígio aceitam pagar: destinar parte dos lucros fáceis com produtos de consumo de massas garantido e fraca despesa (p.ex: cobertura de jogos de futebol) para sustentar produtos não rentáveis em dinheiro mas que geram capital de prestígio e admiração.

Este esquema de financiamento operacional tem sido naturalmente sacrificado pelos cortes com as despesas em geral. É, no entanto, importante relembrar como são realmente as coisas no momento de perguntar à sociedade quem vai pagar o jornalismo.

Chegado aqui, o leitor achará que pertenço aos pessimistas e catastrofistas do jornalismo. Nada mais errado. Pelo contrário, intuo que num mundo em que a informação tende a ser cada vez mais abundante, as habilidades intrínsecas desta profissão serão valorizadas. Tenho até algumas ideias sobre os "comos". Mas por ora prefiro contribuir para poupar equívocos.
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A propósito do meu regresso a uma coluna de papel, uma leitora colocou a dúvida no Facebook. Respondendo-lhe, aproveito para fazer um breve zoom à relação dos jornalistas portugueses com os novos formatos da notícia, partindo da minha experiência prática.

P: Ás vezes parece-me que para os jornalistas o formato de papel continua a atrair-lhes muito, o outro é um refúgio.Estarei errada?

R: Depende dos jornalistas. Eu gosto do papel, tenho 30 anos dele, sou (era) dos que fecham a edição nos acabamentos e vão à gráfica, à boca da rotativa.

É claro que gosto de escrever para o papel. Mas não leia nisto nada de saudoso. Não eu: passei os últimos anos a aprender sobre a edição em linha e em rede e a publicar em digital. Se quer saber, isso custou-me algum transtorno na carreira. Digamos que estava um pouco adiantado em relação ao calendário do meu antigo jornal, e até mesmo do jornal para que trabalhei ocasionalmente (Expresso e Público, respectivamente). Formatos jornalísticos rigorosamente inovadores em Portugal, como um newsmap (quando a gripe suína começou), um agregador em tempo real (eleições internas no PSD em 2008) e um dossiê de cobertura total, com gráficos inéditos, das 3 eleições de 2009, foram recebidos com indiferença nos respectivos jornais.

Aos poucos todos os jornais (que se prezam de ter futuro e audiência) recorrerão a esses formatos, pelo que o meu tempo não terá sido perdido :)

Mas voltando à questão: é verdade que há jornalistas, bem como leitores, que continuam a pensar que o papel "é que é" e que a rede é secundária, quando não mesmo desprezível. E não serão tão poucos assim...

Dois aspectos reforçam a convicção deles. O aspecto económico da atividade (ainda não é claro o modelo de sustentabilidade dos jornais online, nem mesmo se existirá um) e, em Portugal como noutros países com algum atraso social, o reduzido número de consumidores do produto jornalístico. O papel e a rádio e a televisão souberam adaptar-se (nem sempre pelas regras do mercado...), o online é demasiado novo e diferente para ter de o fazer.

Em síntese: como profissional, escrevo para onde tiver de o fazer. Eu como qualquer outro jornalista. Gosto do papel mas prefiro os novos territórios da edição e a exploração dos formatos que fazem do jornalismo uma actividade fascinante. Prefiro-os há muitos anos.


Na imagem abaixo, outro dos formatos diferentes de recolher, filtrar e apresentar informação, para benefício dos leitores: um mini-site que apresentava todas as notícias, posts em blogs e tweets sobre as eleições americanas que opuseram Obama/Biden a McCain/Palin, bem como um mapa dos resultados e uma selecção de notícias e artigos (curating) feita por uma equipa Pro-Am. Em 2008 a maior parte desses conceitos era alienígena no jornalismo português.